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Crônica: Teu Formando

Atualizado: 18 de abr.



Falar e exprimir emoção na participação em cerimônias de formaturas é quase clichê. Essa, porém, não se qualifica à invisibilidade.

Tu tens a oportunidade de participar de um evento que te emociona. Poderias escrever sobre tudo que reverbera ali: a emoção da família, da pessoa formada, dos que assistem. Mas, desta vez, te despes do teu pequeno centro. Desligas-te do umbigo familiar e te permites entrar no mundo, o mundo real, coletivo, de centenas de pessoas.

É aí que algo em ti se rompe.

O sentimento de justiça social te invade quando enxergas, diante dos teus olhos, a inclusão acontecendo. Não como conceito, mas como presença.

Vês a felicidade estampada no rosto de pessoas simples e trabalhadoras que ali estão, alcançando aquilo que sempre deveria ter sido delas: o direito à educação superior, pública e de qualidade.

— Não é mérito. É um direito. O direito inalienável à educação — diz a paraninfa em seu discurso.

Isso te desarma. És branca, de cabelos outrora louros, hoje platinados, e olhos claros. Nasceste em uma sociedade rural. Estudaste em instituições públicas, sim, mas nunca precisaste trabalhar enquanto te qualificavas. Tua família foi empregadora. Não viveste, na pele, a discriminação. 

Tua origem, por mais longe que o estudo tenha te alçado, e alçou, não te abandona. Quem te conhece sabe que lutas por valores humanitários, te colocas contra injustiças, reconheces as pautas das minorias. Sabes, com nitidez, que teu ponto de partida não foi o mesmo daqueles com quem brincavas na infância. 

Eles ficaram. Tu saíste.

E voltaste outra, como na canção de Milton Nascimento: “já tem nome de doutor…”. 

Nunca quiseste retornar para mandar, antes para abrir caminhos. Talvez seja isso que te invade e te transborda nesta formatura. Porque o que teus olhos veem nesta cerimônia é o mundo que acreditas possível. Um mundo com a curva da diversidade.

Misturas-te à multidão e, pela primeira vez, entendes: estás dentro da estatística, não como exceção, mas como parte de uma maioria que raramente se vê representada.

Vês formandos com todas as cores de pele. Muitos com idades que, em outras narrativas, seriam consideradas tardias. Como se os pontos fora da média, aqueles que sempre ficaram dispersos, se reorganizassem, formando uma nova curva.

Uma curva mais verdadeira que interliga pontos de luta, de cansaço, de persistência.  

Resilientes.

Teu formando, no entanto, é aquele ponto que compõe a média: alto, jovem, louro, de olhos claros. Filho de pais letrados. Teria acesso a qualquer universidade. Poderia seguir o caminho mais previsível e protegido. Mas não seguiu, escolheu estar ali.

E, naquele instante, é ele o ponto fora da curva. 

Um orgulho irruptivo te toma.

Teu formando viveu durante cinco anos, a diversidade, a desigualdade de acesso e viu a vida sendo driblada entre a necessidade cotidiana e o sonho de um futuro distinto.

Teu formando escolheu conviver com colegas que trabalhavam durante o dia, que estudavam à noite, que sustentavam filhos, que negociavam o tempo com a falta dele, que se autodefinem negros, pardos, indígenas e moradores de periferia.

Durante cinco anos, ele viu a vida sendo driblada para alcançar um futuro distinto. Viu a desigualdade de perto, não como retórica, mas como rotina. Homens e mulheres maduros, com rostos cansados, mas, hoje, lindamente iluminados por sorrisos que estampam o brio da conquista. 

A felicidade que vês nestes rostos, e que se manteve por um breve instante, pensas ser o mais perto que chegarás de enxergar o formato da honra.

Vais para além de ti.  

Olhas para as pessoas sentadas na mesma fileira de cadeiras que a tua, olhas à frente, te viras para trás. Vês uma plateia de centenas de pessoas bem-vestidas, compostas, emocionadas, mas contidas.

Há lágrimas. Há brilho nos olhos. 

Sentes uma nova emoção. 

Faz tanto tempo que não enxergas expressões de alegria com tal magnitude. Não é felicidade vã, superficial, de medição de louros entre uns e outros e nem de qual grife assina os ternos, os vestidos e sapatos, tampouco, extravasantes ou barulhentas. São alegrias contidas, caladas. 

Um silêncio que te incomoda.

Tu te levantas, aplaudes, vibras com cada fala que reivindica direitos, que afirma pertencimento, que defende a educação pública. Te expões.

A maioria, no auditório, permanece sentada. E isso pesa nos teus ombros brancos, nos teus olhos celestes, no teu percurso facilitado. Perguntas-te se é inibição ou se aquelas palavras ainda não encontram, ali, o lugar de ressonância que deveriam.

Sentes embaraço e uma responsabilidade difusa. Um movimento de empatia te invade. 

Ali, naquela noite, famílias inteiras estão vivendo um momento inédito. Os que estão no palco são os primeiros a chegarem lá. Formandos cuja história não incluiu a universidade como horizonte possível. Pessoas, cuja infância e juventude foram ocupadas por outras prioridades.

Inferes que, aplaudir méritos ainda precisa ser aprendido para todas as pessoas comedidas e silenciosas da plateia. Pensas que os diplomados serão os que, nas próximas gerações, se levantarão sem hesitar; que reconhecerão, nos gestos e nas palavras, aquilo que hoje ainda se organiza por dentro.

Serão os que ampliarão as vozes contra a iniquidade, invisibilidade e acessibilidade. São eles que se permitirão sentir orgulho.

Teu formando, então, deixa de ser apenas teu. Ele passa a ser parte disso.

Perguntas-te: se tivesse seguido o caminho mais fácil, teria aprendido o que aprendeu? Teria se tornado quem se tornou? Não sabes responder, mas sabes que presenciaste uma formatura que não celebra apenas a conquista individual, mas um triunfo coletivo. Uma quebra de paradigmas sociais.

Uma síntese. Uma cerimônia de colação de grau desconcertante. Teus olhos ainda estão aguados. 

E talvez demorem a secar.

 
 
 

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