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Crônica: Camões

Atualizado: 18 de abr.


Sou espelho, mais côncavo do que convexo, que reflete o mundo das gentes que sequer conheci.


Forço nitidez às situações imaginadas para compreender os meus sofreres: tão meus, mas também tão deles. Vidas que se entrelaçam na terceira pessoa do plural.


Dirijo meu olhar esférico às experiências emocionais circulares, aos relâmpagos que iluminam, em fachos, os sótãos da nossa história imigrante. Nada me parece mais constante do que a presença, em minha memória, de contentamentos e descontentamentos de pessoas que jamais se apresentaram umas às outras.


Ainda assim, se reconhecem. É possível sentir a energia de um passado desconhecido e, ao mesmo tempo, presente. Esse pretérito emocional, concluo, é um reservatório de silêncio ultramar. Acomodado e resignado, gravado nas entranhas codificadas dos descendentes.


Passado que se propaga em mim em ondas circulares, como quando uma pedra plana toca a superfície do rio. Minha vida é esse pulsar de tentativas, tantas quantas forem necessárias, para conquistar das pedras os três pulos e, então, formular um desejo.


Escrevo prosa para alcançar a poesia. Atravesso aflições em busca da calmaria. Enxergo as emoções enrodilhadas em roupas amassadas, resistindo à travessia. São cantos, como os de Camões, que permanecem escondidos em baús, em fotografias amareladas, em lembranças evocadas.


(En)cantos que projetam luz sobre meu espelho côncavo e revelam, em prisma, as dores e as cores da minha gente.

 
 
 

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